Sempre

sumusinsula:

Ao contrário de ti
não tenho ciúmes.

Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos teus cabelos,
vem com mil homens entre os seios e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo.

Trá-los todos
até onde te espero:
estaremos sempre sozinhos,
estaremos sempre tu e eu
sozinhos na terra
para começar a vida.

Pablo Neruda, in “Poemas de Amor”

Balada do festival

Corpo de argila
meu triste corpo
não é verdade

se te disserem
miha elegia
ser mais vaidade
do que homenagem.

Por que o seria?
Me adivinhaste
quando a palavra
nada dizia

e o longo tempo
(quando se amava)
havia dias
em que choravas

e estremecias.

Falam de ti.
Da tua pouca
felicidade.

Mas o que importa
a infinidade
dos teus amantes
se toda vez
que te entregavas
extenuado

te perdias.
Ah, se a poesia
me permitisse
vôos mais altos

mesmo na morte
as confidências
que eu te faria…

Ainda me tens.
E bem por isso
destila em mim
teu peso enorme.
E no poema
que te dedico

meu triste corpo
ainda uma vez
chora comigo
chora comigo.


Hilda Hilst

Sete

falaste:

minha boca não segrega, pode vir, a minha língua vai te serpentear e você vai enxergar as sobras dos meus dizeres alcoólicos, o meu cigarro não vai se apagar nessa brisa ríspida, vem, minha boca não limita e vai te saciar, minhas veias vão latejar nesse teu peito largo de atleta, nessa tua tempestade de cabelos esparsos, não para, não cala esse teu sorriso travestido de voz, e só respira e se entrega nessa nossa dança de cadeiras e lugares vazios do coração, só sente a música da tragédia que é escutar esses tolos que não entendem o prazer de uma boca sagaz, fedendo a luxúria de meninos novos.

"

Eu gosto do veneno claustrofóbico da tua saliva
Moral submissa e conveniente a quem fores objeto de insulto
Objetifica-me aos laços do senhor
Ovelha dizimista ao louvor do senhor lobista

Pecado católico atormentado
Minimalismo cristão como única vertente
Qual critério és crime em vosso calabouço
Distribui a real natureza ao contrário das rezas

Paulo sempre esteve certo
Não o apóstolo, o Freire
O oprimido torce para o time opressor
Tua crença fascista vicia facilmente qualquer família

Queres condenar-me como anticristo?
Grito-lhe por antídoto a teu artifício frígido
Antes de amaldiçoar-me, não esqueças do sobrenome suicídio
Assim, despeja-me teu calvário em prestações assassinas

Mendiga a mentira
Lobo alarmando alambrados, guerras e servindo de fetiche ao braço do estado
Clima catastrófico a cada voluntarioso descaso
Descama-te benevolente samaritano, bondade não lhe reaproxima de divindades

Entretenha o intervir
Entretanto, cada assunto com seu pranto
E confesso que fui mais azulejo do que protesto
Isopor aos quatro cantos da Paulista, gotejando atos, línguas desconhecidas e quilometragens de anos de vida…

Inocentes querem o ar para si
Como bênçãos, terras prometidas e vacinas anticatarse
Livrai-me de teu disco repetitivo e outras agremiações fatídicas
O que és forte permanece impávido, o conveniado com o outro lado estás em trabalho de parto

Ladrão que rouba e glorifica tens anos abatidos na sentença?
Ambulância esquizofrênica condenando ambições mundanas
Quem serás tu no deserto faminto e ateísta?
Tateia o conformismo em cada sílaba do versículo de mais um fim de mundo já previsto como tragédia radioativa de uma centelha vermelha…

"
Pintura Renascentista Em Óleo Ungido Por Tua Ganância, Pierrot Ruivo 
"Isto não é poesia, não é nenhum tipo de tentativa de ser poeta ou de endireitar o que me atinge de forma tão estúpida. Isto não é literatura, não é a declamação de um louco na esquina do mundo tentando convencer a multidão que escorre pelas avenidas que existe salvação. Meu peito está esmagado, meu coração é um fio esticado de alta tensão. Minhas mãos exibem palavras que deturpam a solidão. Nada me segura, nada me detém. Sou a ponta de um icebergue com os olhos voltados pra trás, do pouco que me exponho, guardo o sangue que escorre e se mistura ao mar. Viajo milhas e milhas suicidas pra ancorar na minha própria fé que acredita em um mundo melhor. A minha paranoia é esta, eu destruo tudo e reconstruo tudo, sou um trem descarrilhado cheio de sonhos."
Elisa Bartlett  

000132:

submissão é sinônimo de humildade:

não quero me aprofundar nas tuas crises existenciais:
apesar de notáveis diferenças, são também minhas
não sei me despender das dores da humanidade sem antes me isolar:
observar nunca foi tão difícil